Os 99,9%

Quem me conhece sabe que gosto muito de natação. Treino uma hora de segunda a sexta e, nos finais de semana, quando possível, vou para alguma praia ou lago competir em provas de natação em águas abertas.

Na natação, assim como em inúmeras outras habilidades que se queira adquirir, o dom, ou seja, a habilidade inata, conta pouco para as pessoas se tornarem especialistas nessa habilidade. O que é necessário é que:

  • se pratique bastante (10 anos ou 10.000 horas – equivalente a 4 horas por dia útil durante 10 anos);
  • a prática seja consciente, ou seja, que o praticante entenda o que está fazendo;
  • se tenha um bom guia (treinador, coach, mentor, etc.) e;
  • se tenha um ambiente propício.

Esses quatro fatores foram explicados em um artigo intitulado “The Expert Mind” publicado na revista Scientific American em agosto de 2006. Em 2008 Malcolm Gladwell, autor dos livros “O ponto da virada (The Tipping Point: How Little Things Can Make a Big Difference)” e “Blink, a decisão num piscar de olhos (Blink: The Power of Thinking Without Thinking)“, dedicou um livro inteiro a essa tema em “Fora de Série (Outliers: The Story of Success)“.

Eu não pratico natação 4 horas por dia útil. Pratico “apenas” 1 hora por dia útil, ou seja, preciso de 40 anos para virar um especialista. E mesmo que eu consiga praticar mais horas por dia, dificilmente conseguirei ter a performance do César Cielo ou Michael Phelps.


Já que não posso ser o melhor na natação, eu devo parar de praticar? Para que continuar investindo uma hora por dia treinando se não tem como eu competir com os melhores do mundo? Pelo simples prazer de nadar! Pela sensação de bem estar que sinto após cada treino. Pelo prazer de conhecer novas pessoas durante os treinos e nas provas em que participo que compartilham desse meu prazer de nadar. Por saber que a prática de uma atividade física é bom para o corpo e para a mente. Pelo prazer de melhorar. Para incentivar minha filha a praticar esportes. Enfim, existe uma quantidade grande de motivos para eu continuar nadando, mesmo que não exista nenhuma chance de eu competir com os melhores do mundo.

Faço parte dos 99,9%

César Cielo, Michael Phelps e todos esses nadadores que competem em olimpíadas e em provas mundiais de natação representam 0,1% dos praticantes de natação. Eu faço parte dos 99,9%. A mídia esportiva só fala dos 0,1%. A mídia dedicada à natação fala dos 0,5%. A mídia que fala de natação em águas abertas fala dos 0,1% de nadadores que praticam e competem em águas abertas. A mídia que fala de natação masters, ou seja, nadadores acima de 25 anos que deixaram a alta competição também se foca nos 0,1% dos nadadores masters. E está certo falar dos 0,1%, afinal a mídia fala do que é exceção. Os 0,1% é que são notícia.

E os 99,9%?

Continuam praticando natação pelos motivos que descrevi acima ou por outros que nem consigo imaginar. Esses 99,9% olham para esses 0,1% como fonte de aprendizado. O que eles fazem para conseguir nadar tão bem? Posso copiar alguma coisa que eles fazem para eu também melhorar? E o que eles fazem exageradamente que eu não quero fazer, pois não tem a ver como minha motivação para nadar?

O mesmo vale para startups e empresas em geral. A mídia fala apenas dos 0,1%. Fala de Google, Facebook, Twitter, Slideshare, Skype, Instagram, Yammer e de várias outras empresas grandes ou que conseguiram investimentos milionários ou que foram vendidas por valores bilionários. E são esses 0,1% que são notícia, exatamente por serem as execeções.

Como exliquei no post sobre problemas e necessidades, as startup bilionárias, ou seja, aquelas que tem crescimento bem acelerado, são raríssimas. Segundo o relatório Empreendedorismo em revista – 2011 da Organização de Desenvolvimento e Cooperação Econônica (OECD – Organization of Economic Development and Cooperation), menos de 1% das empresas com mais de 10 funcionários têm crescimento de funcionários maior que 20% ao ano nos últimos 3 anos. O estudo chama essas empresas de gazelas, devido à sua velocidade. Segundo o mesmo estudo:

Empresas que crescem mais rápido que o ritmo das gazelas (as super gazelas) são ainda mais raras – tão raras que é muito difícil de medi-las estatisticamente.

Como sabemos que o número de funcionários normalmente está diretamente ligado ao crescimento de receita das empresas, é fácil concluir as “super gazelas” de receita tb são raríssimas, tão raras que sequer têm relevância estatística. Contudo, elas absorvem toda a atenção da mídia, exatamente por serem exceções.

Sramana Mitra, uma reconhecida consultora de estratégia para startups que colobora frequentemente no site ReadWriteWeb, escreveu um artigo falando sobre os outros 99% de empreendedores onde ela diz:

Mais de 99% dos empreendedores que buscam por financioamento de VCs e investidores anjo são rejeitados. Alguns porque apresentam suas ideias muito cedo e estão despreparados, outros porque seu mercado é muito pequeno ou o ritmo de crescimento é lento. Mike Maples, um conhecido investidor anjo do Vale do Silício, recebe mais de 7.000 propostas de investimento por ano e escolhe apenas de 10 a 12 para investir. (Isso dá uma taxa de rejeição de 99,8%) [...] Mesmo assim, a mídia se foca nos 1% que são “financiáveis”. Quando a mídia fala sobre uma startup, ela está interessada em saber qual VC investiu e quanto investiu. Raramente pergunta quanta receita a startup tem e se a startup é rentável. [...] Por outro lado, existem inúmeras histórias de empresas de sucesso que cresceram sem nenhum centavo de investimento de VCs. [...] Elas existem num mundo de empreendedores que gostam de sua liberdade e não estão procurando vender suas empresas ou torná-las públicas. Pode-se dizer que são empresas feitas para curtir (build-to-enjoy) em oposição às empresas feitas para vender (build-to-flip).

Ou seja, o fato de uma empresa não estar nos 0,1% que a mídia fala não significa que ela não é uma empresa rentável e bem sucedida. Ao contrário, a quantidade de empresas rentáveis e bem sucedidas que iremos encontrar nos 99,9% das empresas que não aparecem na mídia é muito maior do que nos 0,1%.

Continue praticando e não se esqueça de sua motivação

Assim como na natação ou em qualquer outra habilidade que você queira adquirir, não existe pessoas com o dom de criar startups. Tanto Sergey Brin e Larry Page, fundadores do Google, quanto Mark Zuckerberg do Facebook, chamaram pessoas experientes para ajudar no crescimento de suas startups. Steve Jobs estava no seu auge em seus últimos anos de Apple, certamente muito melhor do que no começo. Por esse motivo, é importante que você continue praticando, experimentando e estudando sobre como criar e gerenciar produtos web. Procure mentores para lhe ajudar nesse caminho. Troque experiências com outros empreendedores. Como explicado na Scientific Americam e no livro “Fora de Série”, quanto mais praticarmos de forma cosciente, mais nos tornamos especialistas no assunto.

E lembre-se sempre de sua motivação para ter uma startup. Assim como na natação, esses 0,1% de empresas que aparecem na mídia devem ser observados como fonte de aprendizado tanto positivo quanto negativo para a sua startup. O que essas empresas fazem que vc admira e que faz sentido para a sua startup? E o que elas fazem que não faz sentido para você pois não tem a ver com a sua motivação em abrir uma startup?

Livro sobre gestão de produtos

Vc gosta do tema gestão de produtos de software? Quer se aprofundar mais no assunto? Escrevi um livro sobre o assunto, dividido em 5 grandes áreas:

  • Definições e requisitos
  • Ciclo de vida de um produto de software
  • Relacionamento com as outras funções
  • Gestão de portfólio de produtos
  • Onde usar gestão de produtos de software
Capa do Livro Gestão de Produtos

Esse livro é indicado não só para quem tem software como seu core business, como tb para empresas que desenvolvem software sob demanda e empresas que não tem software como seu core business mas usam software para se comunicar com seus clientes como, por exemplo, escolas, bancos e laboratórios clínicos.

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8 ideias sobre “Os 99,9%

  1. Nossa muito show esse post!

    Com certeza criar uma startup no stylo build-to-enjoy é mais prazeroso e da mais motivação para trabalhar afundo nela, com certeza muitas das gigantes empresas Google, Facebook, Twitter começaram assim.

  2. Boa observação do Caio. O que você faz por prazer e não por obrigação, tem mais chance de se tornar algo grande, já que você não está desesperado ou frustrado por atingir ou não os objetivos iniciais.

  3. Muito bom, curti este post. Realmente somos abafados pelos 0,1%, mas tem muita gente fazendo ótimos trabalhos e o melhor de tudo com muita satisfação. Vida longa àqueles que tem no trabalho a oportunidade de fazer algo que traz prazer além de ajudar outras pessoas e empresas obterem sucesso com isto.

  4. O estilo build-to-enjoy certamente é o melhor. Tenho amigos que ganham bem, mas não fazem o que gostam. Eles têm o objetivo de labutar por 25 ou 30 anos nesse trabalho desagradável para depois, quando estiverem aposentados, poderem curtir a vida e seus prazeres. É comum vê-los postando no facebook aquelas frases de humor que falam mal da segunda-feira, que a segunda-feira infelizmente chegou, e coisas do tipo. Eu realmente posso dizer que meu dia-a-dia não é tão pesado, eu adoro o que eu faço e, nas horas vagas, eu continuo “trabalhando”. Na verdade, frequentemente não sei distinguir trabalho de diversão.

  5. Pingback: De onde vem o dinheiro para custear o começo de uma startup? | Guia da Startup

  6. Ótimo texto!
    Para completar seu post, indico um vídeo do Josh Kaufman no TED (pra mim um dos melhores do TED até hoje) sobre a prática e aprendizagem de qualquer coisa na vida e sobre as 10.000 horas do Outliers. Depois desse vídeo, você fica motivado a levantar da cadeira e fazer tudo que tinha de pendente pra aprender.

    https://www.youtube.com/watch?v=5MgBikgcWnY
    ou na pagina do youtube, complete com: /watch?v=5MgBikgcWnY

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