Como escolher uma ideia para transformar em produto web

No post anterior falamos sobre onde encontrarmos problemas para resolvermos e que quanto mais próximos da gente estiver esse problema, melhor. Hoje vamos falar sobre o que fazer quando encontramos mais de um problema que pode gerar um bom produto web. Aliás, essa técnica serve não só quando vc tiver várias ideias, mas mesmo quando vc tiver uma única ideia, pois antes de investir em transformar sua ideia em produto web, vale a pena ver se de fato existe alguém interessado nele e disposto a pagar por ele.

Vc consegue descrever sua ideia em uma única página web?

Então faça isso. Crie uma página web simples descrevendo sua ideia. Não precisa ser uma página super bonita, nem super bem desenhada. Basta ser simples e direto ao ponto, descrevendo sua solução e o problema que ela resolve.

Quando tive a ideia do ContaCal, tive tb a ideia de outras 2 startups e quis saber em qual das 3 ideias investir meu dinheiro, minha energia e meu tempo. Para tomar esse decisão, escolhi um nome e um domínio para cada uma das ideias e registrei esses domínios. Em seguida, criei uma página para cada uma das ideias de produto web que tive. Como não sou nenhum designer, usei um site chamado unbounce, que permite criar páginas simples e até testes A/B de forma bem fácil. Com o unbounce eu criei a página abaixo:

Primeira página do ContaCal

Primeira página do ContaCal

Note que essa página tem só 3 pontos que descrevem o produto, sendo:

  • um ponto para falar do problema;
  • outro para falar da solução e;
  • um terceiro para falar do preço (que nem é o preço praticado hoje).

O formulário de email serviu para captar a quantidade de interessados. Rodei uma campanha no Google AdWords de R$ 10,00 por dia por produto que eu queria testar durante um mês.

Eu tenho um print de um resultado parcial:

Resultado pesquisa

Esse print é de uma tela do unbounce. Depois dos 30 dias de testes terminei com 216 emails interessados no ContaCal e 1.043 pageviews, o que dá 20,7% de taxa de conversão. As outras duas ideias tb mantiveram a mesma tendência do resultado parcial acima.

O custo total desse teste foi de R$ 990,00:

  • Campanha AdWords: R$ 900,00
  • Domínios: R$ 90,00
  • unbounce: grátis por 30 dias, se passasse de 30 dias eu iria pagar R$ 85,00 por mês para até 5 domínios diferentes que eu quisesse testar ao mesmo tempo.

Cada nova ideia custa R$ 30,00 por registro de domínio .br mais R$ 300,00 por mês de campanha no Google AdWords se fizermos um investimento de R$ 10,00 por dia.

Uma outra opção ao unbounce é o launchrock. Não achei informação sobre preços mas me pareceu uma alternativa a ser avaliada.

Mais um exemplo

Mesmo quando vc tem uma única ideia, é bom validar antes de seguir adiante com o desenvolvimento do produto. O Rafael Lima, do Cobre Grátis fez isso. Ele tinha a ideia de fazer um produto web para facilitar emissão de boletos. Era um problema que ele tinha, que resolveu e que imaginou que outras pessoas iriam querer essa solução. Para confirmar sua hipótese ele rodou uma campanha de 3 meses no Google AdWords, gastando um total de R$ 800,00 que enviava para uma pesquisa do sistema de pesquisas online Wufoo que tinha a cara abaixo e o resultado foi 12.939 visualizações e 1.396 pessoas interessadas. Uma taxa de conversão de 10.8%, o que mostrou que valia a pena investir nesse produto pois parecia ser a solução do problema de mais pessoas além dele próprio. E já era uma boa base para o email marketing de lançamento quando o produto estiver pronto. Como curiosidade, veja abaixo como a página que ele fez para captar o interesse é bem simples. É um formulário de três perguntas, direto ao ponto.

Form de pesquisa do Cobre Grátis

Qual é taxa de conversão mínima?

Isso é um pouco difícil dizer, pois depende um pouco de qual é o produto web que vc está pensando em vender. Se for um produto de nicho, ou seja, mais especializado como por exemplo sistema de controle de pacientes para médicos especialistas em coxartrose, pode ser que a taxa de conversão seja pequena mesmo, pois a quantidade de médicos com essa especialidade não deve ser grande. Nesse caso, se vale ou não desenvolver o produto web, vai depender se o seu produto web realmente resolve um problemão para essas pessoas e quanto essas pessoas estão dispostas a pagar por essa solução.

Usando os dois casos acima como parâmetro, que são casos mais genéricos, o ContaCal é um produto que podemos classificar, de acordo com a classificação que fizemos de um produto web em um dos primeiros posts aqui do Guia da Startup, como um produto para consumidor final, não é um produto de nicho e eu decidi ir para o desenvolvimento do produto com algo próximo de 20% de taxa de conversão. O Cobre Grátis é um produto para empresas, também não é de nicho e o Rafael decidiu desenvolvê-lo tendo uma taxa de conversão em torno de 10% o que mostra que em produtos para empresas é aceitável uma taxa de conversão menor.

Vi outras experiências de produtos que não são de nicho e diria que, de forma geral, pelo menos 10% de taxa de conversão, com pelo menos uns 150 emails válidos cadastrados após um mês de campanha no Google AdWords, é o mínimo recomendável para seguir adiante.

Próximo post

Com o post de hoje terminamos o capítulo sobre ideias e problemas e amanhã vamos falar sobre por a mão na massa. Essa parte de por a mão na massa será dividida em duas partes:

  • fazendo o produto web
  • gerenciando o produto web

Os próximos posts serão sobre como fazer o produto web. Contudo, como eu já expliquei antes como o ContaCal foi feito, agora eu vou explicar porque é importante fazer rápido o produto web para entrar logo no modo gerenciando produto web.

Comentários

Como vc testa suas ideias de produto? Gostou dessa forma de testar? Já tinha usado algo parecido alguma vez? Compartilhe!

Qual é o problema?

Como vimos no post anterior, as pessoas sabem o que querem, uma solução para seus problemas. Só que, muitas vezes elas não sabem qual é o problema, ou pior, acham que sabem qual é o problema quando, na verdade, o problema delas é outro.

Muitas vezes as pessoas não sabem qual é o problema

Quando vamos pesquisar por problemas para serem resolvidos e conversamos com pessoas buscando por esses problemas, muitas vezes o que elas nos descrevem não é necessariamente o problema mas sim a forma como elas enxergam o problema ou, o que dificulta ainda mais, a forma como elas imaginam que seja a solução.

Por exemplo, voltando à questão do carro e da carroça do Henry Ford, imagine um diálogo imaginário entre Henry Ford e um hipotético Sr. Smith, um possível comprador de sua futura invenção:

- Sr. Smith, o que mais te aflige?
- Sr. Ford, o que mais me aflige é que passo pouco tempo com minha família.
- E por que?
- Porque passo tempo demais na carroça indo de um lado para o outro. Se eu pudesse colocar mais um cavalo puxando minha carroça, ela andaria mais rápido e eu passaria mais tempo com minha família.
- Ah, entendi seu problema, e tenho uma solução ainda melhor para você, chama-se automóvel.

Será mesmo que Henry Ford entendeu o problema? Ou ele entendeu a solução que o Sr. Smith apresentou para ele? Será que o problema real do Sr. Smith não era que ele passava pouco tempo com a família e talvez precisasse rever sua lista de afazeres fora de casa?

Enfim, esse foi um diálogo hipotético, mas acho que deu para ter uma idéia de como é fácil a gente querer pular logo para a solução sem gastar tempo suficiente tentando entender exatamente qual é o problema. Um bom entendimento de qual é o problema vai ajudar em muito a fazer um bom produto web.

E às vezes as pessoas não sabem que têm um problema

Imagine uma pessoa utilizando um sistema de internet banking. É comum quando uma pessoa vai utilizar um software ela fazer alguma coisa antes de utilizar o software, em preparação para usar esse software e alguma coisa depois, com o resultado do uso desse software. A pessoa pode estar tão acostumada a fazer essas tarefas que simplesmente não enxerga nisso um problema. Esse é o momento em que uma pessoa com o conhecimento do que é possível fazer com a tecnologia disponível tem a ideia de uma solução para um problema que ainda não foi percebido, mas que existe.

A grande questão nesses casos é saber se, pelo fato de o problema não ter sido percebido, quando o for, se ele realmente vai ser visto como um problema por muitas pessoas que estarão dispostas a pagar por uma solução. Se não for, não existe solução a ser vendida.

Devo solucionar problemas de quem?

Quanto mais próximas de você estiverem as pessoas que você vai pesquisar e para quem você vai eventualmente resolver o problema, melhor. A situação ótima é quando você está resolvendo um problema seu pois, nesse caso, você sabe exatamente o que esperar da solução. E é mais fácil descobrir problemas não percebidos seus do que dos outros. Há vários casos de startups que nasceram como soluções para problemas próprios. O ContaCal é um exemplo. Se vc solucionar um problema próprio, quando seu produto estiver pronto e vc o estiver usando, vc sempre terá alguém usando e criticando seu sistema, vc entenderá claramente o fluxo de interação do seu sistema. O único cuidado a ter é que rapidamente vc será um usuário avançado de seu próprio produto e vc não deve se esquecer sempre haverá novos usuários entrando, que nunca viram seu produto e precisarão de uma experiência de uso bem diferente da experiência de uso necessária para um usuário avançado como vc.

Olha que tecnologia bacana!

Uma tecnologia bacana não é nada se ela não resolve um problema. Como estamos cada vez mais cercados por novas tecnologias, é comum encontrar gente que vê uma nova tecnologia e logo pensa que daria um bom produto. Isso é muito comum no mundo das startups, ter uma ideia bacana baseada numa nova tecnologia e fazer um produto em cima dessa nova tecnologia, simplesmente porque agora é possível.

Startups não falham porque não conseguem desenvolver um produto. Startups falham porque não conseguem encontrar clientes dispostos a pagar.

Steve Blank

Uma tecnologia, por mais incrível que seja, se não resolve um problema, nunca será um produto.

Resumindo: problema + tecnologia = solução = ideia de produto

Resumindo, quando juntamos um problema, que nem sempre é fácil de descobrir, mas que quanto mais próximo estiver da gente, melhor, com a tecnologia capaz de resolver esse problema temos uma possível solução que pode virar uma ideia de uma produto.

Próximo post

Na próxima semana veremos o que fazer quando temos mais de uma ideia de produto nas mãos. Vou mostrar um caso prático pois, quando fiz o ContaCal, tinha mais outras 2 ideias de produto web que poderia fazer e acabei optando pelo ContaCal.

Comentários

Vc tem algum história interessante em que o usuário insistiu em dar a solução achando que era o problema? Compartilhe!

Claro que o cliente sabe o que quer!

É comum ouvir em conversas sobre produtos que o cliente não sabe o que quer. Em determinada altura alguém vai soltar a famosa frase de Henry Ford, o inventor do automóvel:

“Se eu tivesse ouvido os usuários, ao invés do automóvel eu teria inventado uma carroça mais rápida”

Aliás, quem gostava de repetir essa frase à exaustão era o eterno CEO da Apple, Steve Jobs.

As pessoas sabem o que querem, uma solução!

As pessoas sabem sim o que querem. Elas querem uma solução para os seus problemas. O que elas não costumam saber é qual é a solução para esses problemas. E é aí que entra Henry Ford, Steve Jobs e o nós, o resto dos mortais, que queremos desenvolver produtos para resolver esses problemas.

Os primeiros passos para criar um bom produto são:

  • perceber que existem pessoas com um problema para ser resolvido
  • entender muito bem qual é esse problema
  • entender o que motiva as pessoas a querer que esse problema seja resolvido

Quando você conversar com pessoas com problemas, algumas até dirão que acham que esse problema poderia ser resolvido assim ou assado mas nesse momento, o mais importante é descobrir se existe um problema a ser resolvido!

Problema: as pessoas demoravam muito tempo para se locomover

Esse foi o problema que as pessoas queriam que alguém resolvesse para eles na época de Henry Ford. Não importava como. Podia ser com mais cavalos na frente da carroça, podia ser cavalos treinados para andar de patins, podia ser com cavalos geneticamente modificados para andar mais rápido, podia ser com a invenção do automóvel, podia ser com a invenção do avião, podia até mesmo ser com a invenção do teletransporte. Note que para quem tinha o problema de demorar para chegar, a forma como seria resolvido não importava, desde que fosse resolvido.

Problema: pais querem ir ao restaurante com seus filhos pequenos e querem ter um almoço tranquilo

Esse é um problema que muitos pais têm. Existem várias formas de se resolver esse problema. Um deles é com um iPhone, iPad ou qualquer aparelho touch carregado com joguinhos e filmes para crianças. Com certeza essa é uma solução para esse problema que ninguém tinha pensado antes da existência dessa tecnologia. Acho até que nem Steve Jobs havia pensado nesse tipo de uso. Contudo, como nosso foco é no problema, e não no produto, é fácil ver que essa não é a única solução. Há outras como, por exemplo, o restaurante distribuir kits para crianças com caderno de atividades e desenhos para colorir, ou ainda o restaurante ter uma área reservada para crianças com monitores que fazem brincadeiras com os filhos enquanto os pais podem ter uma refeição tranquila.

Problema: pessoas querem fazer reeducação alimentar para poder ter uma alimentação mais balanceada e assim perder peso e se sentir melhor

Sempre que se vai a médicos ou nutricionistas, surgem aquelas folhinhas com dietas e várias sugestões de cardápio para serem seguidas. Quem já fez dieta sabe, restringir alguma coisa na alimentação é muito difícil. A gente fica contando os dias para acabar a dieta e poder comer de novo aquilo que nos foi restringido. E na correria do dia-a-dia, seguir sugestão de cardápio é impraticável.

Até que um dia encontrei uma nutricionista que não fez nenhuma restrição, apenas me pediu que eu fizesse um diário alimentar, ou seja, que eu anotasse o que eu comia e a quantidade para que depois pudéssemos analisar juntos o que precisava ser ajustado, quais “escorregadas” não faziam muito mal e quais deveriam ser evitadas, enfim um controle mais adaptável ao meu dia-a-dia. Ela me contou que pessoas que mantêm um diário alimentar perdem até o dobro do peso que as que não têm o registro.

Daí surgiu a ideia de procurar algum sistema contador de calorias. Encontrei vários, todos com alguns pontos interessantes mas nenhum deles suficientemente bom para me manter motivado a continuar usando.

Para atender a essa minha necessidade, resolvi montar o ContaCal.

Próximo post

Amanhã veremos onde encontrar problemas para resolver e onde estão os melhores problemas.

Comentários

Vc conhece algum problema com alguma solução inusitada? Compartilhe!